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Paulo Bagunça e a Tropa Maldita

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Coluna “Disco é Cultura” Por Diego Penaforte

O álbum que estreia a coluna Disco é Cultura é Paulo Bagunça e a Tropa Maldita, de banda do mesmo nome, liderada pelo recém-falecido Paulo Soares Filho. Portanto, a postagem é uma homenagem não só ao original álbum, que faz uma mistura única de samba, Jorge Ben, soul, folk, música africana, psicodelia, dentre outras influências, mas também ao irreverente Paulo Bagunça, que morreu no sábado dia 22/08/2015, vítima de um infarto, em sua casa na Barra de Guaratiba, Rio de Janeiro, com 72 anos.

A Tropa Maldita foi formada no final dos anos 60 na Cruzada São Sebastião, conjunto habitacional de classe baixa do Rio de Janeiro que costumava ser chamado de “Harlem carioca” em referência ao bairro nova-iorquino, grande centro cultural negro. Em 1972, a banda ganhou um festival de música organizado pela comunidade, que prometia uma bolsa de estudos no Instituo Villa Lobos e a gravação de um compacto pela Odeon. Os prêmios ficaram no mundo das promessas, mas Paulo e a Tropa continuaram tocando de forma independente.

Em longa entrevista à revista Rolling Stone , publicada em maio de 1972, antes de gravar seu primeiro e único álbum, Paulo diz: “Depois que ganhamos o festival, ficou difícil à beça pra gente arranjar lugar pra tocar e a gente tava a fim de tocar. Ai começamos a ensaiar, por baixo nos blocos, na pracinha. Todo mundo começou a se amarrar e nós continuamos a ir pra rua e pra pracinha. Aí juntou muita gente mesmo, daí nós fomos para a praia, entramos numa outra. Mas não houve intenção… Nós estávamos meio perdidos porque ganhamos o prêmio do festival e o cara, sei lá, deu o trambique na gente, não deu os prêmios, então partimos pra uma de conseguir as coisas sem precisar deles”.

Paulo Bagunça e A Tropa Maldita acabaram atraindo a atenção da gravadora Continental e em 1973 gravaram o LP de mesmo nome com produção de Carlos Alberto Sion e belos arranjos do maestro Laércio de Freitas. O LP acabou vendendo muito pouco e tendo pouca repercussão. Paulo largou a música como profissão e voltou a se dedicar ao seu trabalho de salva-vidas nas praias cariocas.

Depois do fracasso comercial do álbum, a banda estava fadada ao fim. “Paramos naturalmente, a banda foi se desfazendo. Você sabe: negro, pobre, sem condição social, tem de arrumar trabalho para sustentar a si e à família”, conta Osvaldo Rui da Costa, o Macau, violonista da Tropa, em recente entrevista ao jornal O Estado de São Paulo. Curiosamente, a música de Macau ganhou o Brasil em 1982, ao compor o grande sucesso “Olhos Coloridos” interpretado por Sandra de Sá.

Em meados dos anos 2000, o disco por fim ganha repercussão depois de chamar a atenção de pesquisadores musicais e amantes da música brasileira, especialmente no exterior, sendo hoje cultuado entre estes devido à sua qualidade e pegada original.

Com a “descoberta”, o disco ganhou relançamento em CD pelo selo argentino Discos Mariposa, em 2006, e em vinil pelo selo brasileiro Somatória do Barulho, em 2014.

Recentemente, Paulo Bagunça participou de gravações do documentário em produção “Brazilian Guitar Fuzz Bananas”, do cineasta brasileiro Artur Ratton, que está explorando a música psicodélica brasileira desconhecida junto ao pesquisador e produtor, também brasileiro mas radicado em Nova Iorque, Joel Stones. Em cena divulgada, Paulo conversa com Joel e diz que “O passado é uma roupa que não se veste mais”.

Ratton havia declarado recentemente, em entrevista de junho deste ano para a Folha de São Paulo que o próximo passo do projeto era levar Paulo para gravar em Los Angelos sob produção de Mario Caldato Jr., experiente produtor brasileiro que já trabalhou com bandas como Beastie Boys, Beck, Nação Zumbi e Planet Hemp.

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Paulo Bagunça e a Tropa Maldita – 1973

Lado A
1/Apelo (Paulo Bagunça / Macau)
2/Grinfa Louca (Paulo Bagunça)
3/Olhos risonhos (Paulo Bagunça / Riva)
4/Microfones Metálicos (Paulo Bagunça)
5/Tramba (Paulo Bagunça)

Lado B
1/A Mente (Paulo Bagunça / Macau)
2/Olhar Animal (Macau)
3/Madalena (Paulo Bagunça)
4/Mensageiro (Paulo Bagunça / Macau)
5/Cristina (Paulo Bagunça / Macau)

Integrantes da Tropa Maldita: Paulo Bagunça (voz e violão); Macau (violão/vocal/gaita na música Apelo/solo de voz em Olhar Animal); Congolês (percussão); Jamil (percussão);
Arranjos: Laércio de Freitas (Apelo/Grinfa Louca/Olhos Risonhos/Microfones Metálicos/A Mente/Olhar Animal/ Mensageiro); Tropa Maldita (Tramba/Madalena/Cristina);
Produção Fonográfica: Discos Continental;
Direção de Produção: Ramalho Neto;
Produção Artística: Carlos Alberto Sion;
Coordenação de Produção: Júlio Nagib;
Assistente de Produção: Coelho Neto;
Técnicos de Gravação: Luigi e Walter ¨Blue Night”;
Fotos: Walter Firmo;
Capa: Sérgio Grecu.

Por Diego Penaforte
Colecionador de discos, DJ e, sobretudo, apaixonado por música. Acredita nela como um instrumento de conexão entre as pessoas e de evocação de sentimentos.

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